Blade Runner: quando o monstro parece mais humano que o criador

Como seria viver com medo? De alguém muito superior a você, ou com mais recursos? Blade Runner aborda isso de uma maneira fria e assertiva. O personagem Roy Batty carrega sentimentos de angústia, senso de justiça e um pouco de discernimento. A carga emocional, principalmente dos replicantes Nexus 6, é retratada de forma empática.

O filme nos apresenta um universo cyberpunk completo, com elementos conhecidos da época misturados a coisas futuristas, tecnologias que só existem naquele mundo, como, por exemplo, os carros voadores e ferramentas capazes de identificar quem é replicante e quem é humano. É interessante notar como esses conceitos de separação por classes são comuns, e isso influencia diretamente o enredo do filme. Deckard é um caçador, alguém que tem o trabalho de eliminar aqueles que a sociedade considera inferiores e que formam uma minoria, mantendo a ordem, por assim dizer. Chama a atenção a comparação que podemos fazer com a nossa época e outras passadas. Povos negros, indígenas, judeus etc. foram eliminados e tiveram histórias cujas memórias permanecem vivas principalmente entre aqueles que passaram por essas experiências.

Aqui não é diferente; nesse caso, o ser humano arrumou alguém para subjugar ainda mais, pelo simples fato de esses indivíduos estarem presos à sua programação. Tudo isso é importante porque dá estofo para uma história de ficção e gera um debate que sempre vai existir: até quando vamos subjugar determinada classe, grupo ou raça? Será essa a nossa “programação”?

O ponto a destacar é Tyrell. Ele representa a elite econômica e tecnológica daquele mundo, aqueles que conseguem ter pessoas ao seu favor e controlá-las de certa forma, afinal ele é rico e possui recursos. Criou, programou e não foi capaz de sentir empatia por esses seres. É o chefão de tudo e, ao mesmo tempo, não sabia resolver o problema dos Nexus 6. Batty queria mais tempo para presenciar coisas puras e lindas e para ter a capacidade de sentir sem lembrar que lhe restava tão pouco tempo. O momento que mais impacta é saber da data limite deles e ver que o seu fim está chegando; o cerco vai se fechando, e o senso de urgência é construído com Batty e outros replicantes “apelando” para a violência. Ridley Scott não se apressa e mantém uma linha contínua de diálogos profundos e sequências que não são vazias, sempre havendo algo para contar.

Deckard se apaixona por Rachel e percebe que os replicantes são capazes de sentir e até mesmo amar. Isso o leva a questionar se aqueles replicantes teriam realmente salvação. É uma maneira interessante de transferir a verdadeira culpa para o grupo que a merece; aqui o romance não é apenas um clichê, e sim um suporte a mais para a história.

O filme brinca com a figura de caça e caçador, e Deckard é quem sofre. O primeiro vislumbre que temos de Deckard o apresenta como alguém confiante, astuto e observador, porém toda essa figura é quebrada ao encontrar os Nexus 6. Roy, ao perceber que lhe restava pouco tempo de vida, procura maneiras de continuar com os seus movimentos e faz valer esses últimos minutos. Uiva, corre e intimida Deckard; não só intimida o Blade Runner, como também o salva e deixa uma ideia em sua mente. Essa ideia cria raízes em sua mente, e ele volta para Rachel, percebe o quanto ela é importante para ele e procura levar adiante essa nova visão de mundo de outra maneira.

Aqui ele, de maneira extraordinária, joga as cartas na mesa e questiona não só o protagonista, mas também o telespectador, levando-o a entender quem é o verdadeiro vilão da história.

O ponto aqui é entender o ritmo do filme e sua mensagem principal, elementos que muitas vezes parecem escondidos, porém, quando apresentados, surge como uma arma apontada para você, fazendo você decidir de que lado vai ficar. Foi uma das melhores experiências que já tive ao assistir a um filme, misturando ação, roteiro inteligente e efeitos que ajudaram a consagrar a obra.

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