Villeneuve emulando Spielberg: que coisa boa de se ver. Esse sempre foi um tema debatido e trabalhado por ele, trazendo uma camada de ludicidade e suspense ao mesmo tempo. A Chegada se propõe a ser esse tipo de filme: um pouco de E.T. – O Extraterrestre, ao apresentar uma ótica diferente sobre os alienígenas, mais voltada para a comunicação, o afeto e um propósito para a humanidade. Também há influências de Guerra dos Mundos, filme que certamente figura entre as grandes obras introdutórias desse lado do cinema. O longa apresenta os extraterrestres como uma ameaça real e influencia diretamente a forma como os humanos reagem à chamada “invasão alienígena”. Villeneuve pega um pouco daqui e dali, junta elementos do conto História da Sua Vida, de Ted Chiang, e constrói algo voltado para o existencialismo e para o propósito de nossas vidas. O filme reúne elementos que sustentam a narrativa por completo e fortalecem seu núcleo humano. É possível notar como a família possui um peso gigantesco na trama, principalmente por meio do amor.
Entre os personagens centrais da história, Louise Banks, interpretada por Amy Adams, leva uma vida pacata e melancólica. Pelo início do filme, isso fica bastante explícito. Louise possui a capacidade de enxergar acontecimentos futuros; ela vê flashes de uma filha cujo destino ainda não compreende completamente. No entanto, ainda não consegue interpretar essas visões corretamente, acreditando que aqueles acontecimentos irão ocorrer algum dia. Enquanto isso, continua dando aulas sobre linguagem e sobre como ela influencia nossas vidas, algo que se torna essencial para o diálogo com os extraterrestres.
O Coronel Weber, interpretado por Forest Whitaker, procura Louise quando a invasão alienígena começa e lhe apresenta uma missão que envolve a comunicação com os seres. Ao aceitar, ela conhece Ian Donnelly, interpretado por Jeremy Renner. Sua área de atuação é voltada para os números: ele é um físico com forte ligação à ciência e à pesquisa. Ian traz um ar de leveza e otimismo para a narrativa, ainda que nem sempre. Seu envolvimento com o desconhecido ilustra muito bem como qualquer pessoa reagiria diante de um contato dessa magnitude. Aliás, todos os pesquisadores representam diferentes aspectos do comportamento humano ao interagir com uma situação dessa natureza.
No que diz respeito ao contato com os seres extraterrestres, é possível perceber o cuidado dos roteiristas e, principalmente, do diretor. Os heptapods são apresentados em cenas que evocam um sentimento de terror e estranheza, quase como algo sobrenatural. Essas sequências são filmadas com uma técnica característica de Villeneuve, que frequentemente trabalha a escala em seus enquadramentos. Vemos a enorme diferença de tamanho entre Louise, Ian e os heptapods, além da perspectiva dessas criaturas ao observar um pássaro que funciona como um sistema de alerta.
A cadência do primeiro ato é bastante tranquila e nunca se atropela. O filme sabe apresentar seus conceitos e oferece tempo suficiente para que o espectador absorva e analise os elementos ao seu redor, assim como os próprios personagens. A direção faz questão de mostrar como a ‘Concha’, a nave alienígena, é gigantesca e capaz de gerar temor tanto em indivíduos quanto em nações inteiras. Esse é um ponto interessante, porque o filme foge da tradição de concentrar invasões alienígenas apenas nos Estados Unidos. Aqui, vários países entram em contato com os heptapods e precisam compartilhar informações entre si. É uma escolha inteligente, pois universaliza o medo e a insegurança, independentemente da nacionalidade.
Com o passar do tempo, a relação de Louise e Ian com os alienígenas Abbott e Costello passa a ser baseada na confiança, permitindo uma comunicação cada vez mais direta e eficiente. Os heptapods se expressam por meio de símbolos visuais, enquanto Louise e Ian trabalham para codificar e identificar significados, construindo gradualmente um idioma capaz de estabelecer uma ponte entre as duas espécies.
Lembro-me da primeira vez que assisti a este filme. A trilha sonora sempre me causava uma sensação desconfortável, como se tudo aquilo pudesse realmente acontecer. Hoje entendo o quanto ela é essencial para a experiência. A trilha possui diversas nuances e é utilizada nos momentos certos, representando com eficiência a tensão envolvida no estudo dos heptapods, principalmente por se tratar de algo completamente desconhecido.
No desenvolvimento da história, descobrimos que os alienígenas não vieram à Terra para atacar ou destruir, mas para oferecer um presente. O filme deixa claro seu tema central: a comunicação. Ela é a verdadeira arma. Ao aprender a linguagem dos heptapods, Louise adquire a capacidade de compreender plenamente suas visões e passa a perceber passado, presente e futuro de maneira simultânea. Os extraterrestres afirmam que, um dia, precisarão da ajuda da humanidade, e esse presente serve para prepará-la para esse momento.
Em determinado ponto, vemos como alguns grupos de cientistas acabam ficando no escuro por estarem desconectados da cooperação global. Isso evidencia a importância da comunicação e da colaboração entre os povos. Entretanto, essa mesma conexão possui um lado negativo. O bombardeio de informações chega por todos os meios possíveis: jornais sensacionalistas, podcasts, redes sociais e diversas outras plataformas. Em momentos de pânico, muitas pessoas perdem a capacidade de raciocinar de forma clara e racional. Até mesmo a disseminação de informações falsas é abordada de forma sutil pelo roteiro.
O propósito da vida é trabalhado em paralelo às visões de Louise. Todos os momentos de sua existência têm importância. Hannah, sua filha, sofre e morre em decorrência de um câncer sem cura. Quando Louise compreende essa realidade, sofre um impacto devastador. As cenas felizes ao lado da filha passam a carregar um peso emocional muito maior, especialmente depois que descobrimos que aquelas memórias pertencem, na verdade, ao futuro.
Ao descobrir que Ian Donnelly é seu futuro marido, todas as peças se encaixam e o filme ganha uma dimensão ainda maior. Também passamos a compreender o ponto de vista de Ian. Quando compreende a situação, ele não aceita o fato de Louise saber o destino de sua filha e, ainda assim, escolher seguir aquele caminho. Porém, Louise entende que, mesmo diante da dor inevitável, Hannah merece viver, amar e ser amada. Ela escolhe proporcionar à filha uma vida plena, cercada de afeto e cuidado.
Esse conflito acrescenta uma camada dramática importante ao personagem de Ian. Quando Louise pergunta:
“Se você pudesse ver toda a sua vida, do início ao fim, mudaria alguma coisa?”
e ele responde:
“Talvez eu dissesse o que sinto mais vezes.”
fica evidente que Donnelly estava aberto a construir uma relação com Louise, mas que, inevitavelmente, chegaria o momento em que discordaria da decisão dela de aceitar um futuro marcado pela perda.
Aceitar o destino é algo assustador. Perceber que ciclos se encerram e que o futuro nos reserva acontecimentos inevitáveis exige esperança. Por mais que o casal de pesquisadores se complete, existem divergências entre eles. Quando Louise diz:
“Eu tinha me esquecido de como era bom ser abraçada por você.”
o filme reforça uma de suas ideias mais belas: o amor é uma das formas de comunicação mais poderosas que existem, transcendendo passado, presente e futuro.


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